A minha Lisboa reduz-se a cada dia que passa.
Vivo numa aldeia que vai do Rato ao Chiado onde todos os dias me entroso com os seus habitantes. Sonho com o dia em que vou entrar no café e sem dizer nada o senhor vai dizer "sai uma bica" como com aquela senhora que bebe todos os dia "uma italiana em chávena escaldada". Quem já me conhece são os
injustiçados da Procuradoria que recentemente têm estado quase todas as manhãs de plantão à espera que sejam ressuscitados dos mortos... tres mil quinhentos e quantos mais? dias leio diariamente, e até o senhor já me cumprimentou com um bom dia e eu respondi bom dia. Mas não é nada bom pois não?
Fujo do autocarro apinhado e agradeço poder caminhar para o atelier. Cumprimento os
japoneses, mais uns conhecidos. Assisto a um roubo de um cacho de uvas. Vejo o dono seguir o homem e trazê-lo pelo braço "Tem que pagar!". Faço um desvio para cheirar a magnífica árvore do Principe Real. Em cada rua que subo e desço há momentos de puro deleite sejam as colinas, seja o rio sempre tão brilhante de manhã. Na Baixa os meninos dos inquéritos já não me perguntam se podem fazer umas perguntas, os punks-malabaristas já não me pedem dinheiro, sou da casa e
pennyless. Os pedintes multiplicam-se e o desespero aumenta multiplicando também os modos de pedir como o do vendedor da cais que canta e faz uns movimentos de sapateado.
Qualquer distância de metro leva-me primeiro para a periferia, Saldanha, Praça de Espanha e depois para o subúrbio, para os lados do Campo Grande ou Benfica. Belém, onde
fucking subway não chega é outra aldeia, claro. Para o Parque das Nações? Não é preciso passaporte?
A minha Lisboa reduzida reduzida a cada dia que passa.