Bom, eu disse que nem queria falar disto mas de vez em quando embato em textos que merecem ser partilhados. Este deu um trabalhão à Sara (outra, que ainda não falo de mim na terceira pessoa) a passar do papel para o computador mas sim, Sara, valeu a pena, obrigada. E depois de ter lido um dos comentários no post anterior achei que devia fazer o copy/paste.
Confesso que já me apetecia pouco falar do tema do aborto, depois de todos os argumentos terem sido já tão amplamente discutidos e a obstinação condenatória persistir. Mas depois de algumas vozes inesperadas terem vindo a público afirmar coisas espantosas, algumas delas neste mesmo jornal, talvez faça sentido reafirmar algumas verdades óbvias, ainda que incómodas.
1. O aborto existe, sempre existiu e não vai deixar de existir. Seja por ignorância, imprudência, erro de julgamento ou simples azar, as mulheres ficam grávidas sem querer. E por vezes sentem que efectivamente não querem ou não podem seguir em frente com aquela gravidez. Claro que todos queremos diminuir essas situações - e devemos fazer esforços sérios, não moralistas e não paternalistas nesse sentido. Mas o problema nunca será totalmente resolvido a montante. As questões que importa, por isso, colocar são: onde e em que condições é que esse aborto vai ser feito? Deve uma mulher pagar com risco de morte ou dano severo para a saúde essa decisão? Que legitimidade existe no enriquecimento feito com base no aborto clandestino?
2. E, já agora, deve a mulher pagar essa decisão com a prisão? Porque, como ficou amplamente demonstrado, efectivamente há condenações por causa do aborto. E que me desculpem os defensores de soluções intermédias: ou é crime e é penalizado ou não é penalizado e não é crime de todo. Porque, que sentido faz perpetuar uma lei que não é para cumprir? Que traduz esse incumprimento senão o seu radical alheamento da realidade e vontade social?
3. E agora que me desculpem alguns sectores feministas: não, o aborto não é uma questão de mulheres. Ou antes, é-o, mas não deveria ser, pelo menos não deveria ser equacionado como uma questão apenas de mulheres. E neste erro tanto os defensores do "sim" como do "não" têm caído. Claro que há questões de género no aborto, desde a desigual repartição dos cuidados com os filhos, aos desequilíbrios salariais. E, claro, o simples facto de ser no corpo da mulher que a decisão de ter ou não filhos assume uma violência "incarnada". Mas, a não ser que estejamos perante novos mistérios transcendentais, cada embrião tem dois seres humanos na sua génese. Onde estão os homens, no equacionar público desta questão? E, já agora, onde estão os homens condenados pela decisão de abortar (ou será - coisa conveniente - que todas as mulheres condenadas por aborto em Portugal decidiram sozinhas, sem participação ou conhecimento dos respectivos parceiros?).
4. Finalmente, o que sinto como uma última verdade, para mim própria inconveniente: por muito que os defensores do "sim" a evitem - e eu, como defensora do "sim", compreendo a estratégia -, a questão da vida humana é de facto relevante. Porque, se entendermos o embrião como igual a uma pessoa - se acreditarmos mesmo nisso -, então o aborto apenas se justificaria em situações de risco de vida da mãe. Porque apenas aí estaríamos a falar de valores de igual ordem moral. Mas será que acreditamos mesmo que um embrião é uma pessoa? Reagimos da mesma forma ao aborto espontâneo às 10 ou 12 ou até mais semanas como reagiríamos à morte de um recém-nascido? Sofremos da mesma forma? Ritualizamos da mesma forma a sua perda? Alguém pode, em consciência, dizer que sim?
Artigo de opinião assinado por Carla Machado, professora universitária, no Público da última quinta-feira.
09 November 2006
30 October 2006
que se lixe o referendo
Na questão do aborto a ser referendada em Janeiro talvez, não pretendo entrar em qualquer debate, não quero mudar a opinião de ninguém, nem sequer discuti-la. Exaspera-me. Irrita-me.
Não faz qualquer sentido sequer um referendo e, no meio disto tudo, entristece-me termos um governo cobarde que se deixa manipular por lobbys, preconceitos e medos conservadores e a Igreja. Parece grande feito realizar-se novo referendo quando se devia mudar a lei logo e pronto. Para quê tanta hipocrisia?
Há 8 anos, tinha eu 18 anos e não pude votar, já estava recenseada mas não inscrita nos cadernos eleitorais. Lembro-me de estar sozinha em casa com um caderninho para apontar previsões e estatísticas. E de ter dito que se o Não ganhasse mudava de país. Se agora o Não ganhar de novo, não é isso que me fará mudar de país mas far-me-á sentir cada vez mais estrangeira no meu próprio país.
Mas pelo menos vai ser a primeira vez que nem vou hesitar no lugar da cruz.
Não faz qualquer sentido sequer um referendo e, no meio disto tudo, entristece-me termos um governo cobarde que se deixa manipular por lobbys, preconceitos e medos conservadores e a Igreja. Parece grande feito realizar-se novo referendo quando se devia mudar a lei logo e pronto. Para quê tanta hipocrisia?
Há 8 anos, tinha eu 18 anos e não pude votar, já estava recenseada mas não inscrita nos cadernos eleitorais. Lembro-me de estar sozinha em casa com um caderninho para apontar previsões e estatísticas. E de ter dito que se o Não ganhasse mudava de país. Se agora o Não ganhar de novo, não é isso que me fará mudar de país mas far-me-á sentir cada vez mais estrangeira no meu próprio país.
Mas pelo menos vai ser a primeira vez que nem vou hesitar no lugar da cruz.
27 October 2006
um post parvo sobre a vida lá fora
Sim, o sol brilha lá fora e eu aqui dentro. Já esgalhei umas desculpas que me "obriguem" a ter que sair em horário de expediente (é preciso entregar esse pacote? nada de estafetas, eu vou lá!) Sim, o sol brilha lá fora e hoje é dia 27 de Outubro. Sim apetece-me cair nos clichés todos de "o tempo neste país é realmente magnífico". Mas é, é mesmo!
Penso na Anne amiga alemã que deve estar neste momento a passear por Belém e a carregar as baterias solares antes de voltar para Oslo. Sim, em Oslo, capital desse país escandinavo, rico, moderno e desenvolvido que é a Noruega, já anoitece lá para as 16 e estão menos 10º. Ainda não começou a nevar mas convém andar com umas luvas na carteira. A falta de sol está na origem de uma série de mal-estares e cria cansaço. Assim, em Oslo, capital desse país escandinavo, rico, moderno e desenvolvido que é a Noruega, compram-se umas lâmpadas que projectam uma luz equivalente à luz do dia para compensar a falta de luz solar. Para se sobreviver ao Inverno.
Ahh, a vida lá fora não brilha tanto como queremos acreditar! Agora este sol de outono é mesmo magnífico!
Penso na Anne amiga alemã que deve estar neste momento a passear por Belém e a carregar as baterias solares antes de voltar para Oslo. Sim, em Oslo, capital desse país escandinavo, rico, moderno e desenvolvido que é a Noruega, já anoitece lá para as 16 e estão menos 10º. Ainda não começou a nevar mas convém andar com umas luvas na carteira. A falta de sol está na origem de uma série de mal-estares e cria cansaço. Assim, em Oslo, capital desse país escandinavo, rico, moderno e desenvolvido que é a Noruega, compram-se umas lâmpadas que projectam uma luz equivalente à luz do dia para compensar a falta de luz solar. Para se sobreviver ao Inverno.
Ahh, a vida lá fora não brilha tanto como queremos acreditar! Agora este sol de outono é mesmo magnífico!
20 October 2006
are you ready now?
yes, I'm ready now
You couldn't change
you wouldn't understand
but I'm ready now I'm ready now
I'll make you proud I was your man
cos I'm ready now
I'm ready now
I'm ready now
I'm ready now
Hey I'm ready now
You couldn't change
you wouldn't understand
but I'm ready now I'm ready now
I'll make you proud I was your man
cos I'm ready now
I'm ready now
I'm ready now
I'm ready now
Hey I'm ready now
19 October 2006
felizes os ignorantes porque deles é o reino dos céus
Às vezes não sei se conhecer meio mundo não é mais um castigo que uma benção.
17 October 2006
13 October 2006
new order
Nos dias de histeria euromiliária, marcava os número ao som de Touched By The Hand of God, caminhava até à tabacaria com True Faith nos ouvidos, mas temia Ruined In a Day enquanto largava as moedas no balcão e inevitavelmente a banda sonora de sábado era Regret.
protesto geral
Dou por mim involuntariamente a relembrar tempos de manifestações, eu que cresci a ouvir (e provavelmente a gritar também) CGTP, unidade sindical nesses loucos anos 80, sou apanhada na Avenida por uma massa de gente que pôs o trânsito em Lisboa num caos ainda maior que o costume e que gritava. Trabalhar até morrer, aqui não pode ser, O custo de vida aumenta, o povo não aguenta, Trabalho sim, desemprego não, Direitos adquiridos não podem ser roubados. Sinto uma nostalgia de passear às cavalitas do meu pai e de quando quase fui espezinhada num Primeiro de Maio em que desabou o céu sobre Lisboa. E sinto uma nostalgia de quando não sentia estas frases como ocas e vazias e estas manifestações sem efeito e penso como me tornei tão céptica e distante tão nova e porque é que eu não acredito. Desiludo-me comigo.
Rio-me com um tipo que, com um brilhante sentido de oportunidade, distribui por entre os manifestantes panfletos que perguntam "Está a ganhar o que merece? Farto de trabalhar para os outros? Mude a sua vida... saia da crise! Faça-o HOJE".
Páro no supermercado 4 americanas rejubilam de felicidade quando descobrem o "matuch" a 1,39 €. Espreito e vejo o rosé manhoso. Tenho vontade de lhes dizer que aquilo não é vinho. Os manifestantes compram água para acalmar a garganta e continuarem. Trabalhar até morrer, aqui não pode ser, O custo de vida aumenta, o povo não aguenta, Trabalho sim, desemprego não, Direitos adquiridos não podem ser roubados.
Eu regresso ao meu trabalho. Com uns iogurtes para o lanche e um panfleto no bolso.
Rio-me com um tipo que, com um brilhante sentido de oportunidade, distribui por entre os manifestantes panfletos que perguntam "Está a ganhar o que merece? Farto de trabalhar para os outros? Mude a sua vida... saia da crise! Faça-o HOJE".
Páro no supermercado 4 americanas rejubilam de felicidade quando descobrem o "matuch" a 1,39 €. Espreito e vejo o rosé manhoso. Tenho vontade de lhes dizer que aquilo não é vinho. Os manifestantes compram água para acalmar a garganta e continuarem. Trabalhar até morrer, aqui não pode ser, O custo de vida aumenta, o povo não aguenta, Trabalho sim, desemprego não, Direitos adquiridos não podem ser roubados.
Eu regresso ao meu trabalho. Com uns iogurtes para o lanche e um panfleto no bolso.
29 September 2006
porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
26 September 2006
22 September 2006
goddam right
Nunca sei muito bem o que fazer quando me sinto em baixo por qualquer motivo ou sem qualquer motivo. Vario entre o "tens que te animar miúda!" e o "uma certa tristeza não faz mal a ninguém" ou o "isto há-de passar". A banda sonora para estes dias afecta-me mais que noutros dias. Poderia pensar-se que deveria escolher música alegre, uns shalalala como eu gosto tanto, chamar o Neil Hannon ou até uns Beach Boys. Escolher bandas depressivas com letras tristes como Eels seria entendido como uma má ideia. Enrolada na melancolia do mr.E ainda me afundaria mais na minah tristeza.
A verdade é que a ouvir músicas como Elizabeth On The Bathroom Floor não consigo deixar de sorrir e me sentir mais animada porque o último sítio onde queria estar era deitada no chão da casa-de-banho à espera de morrer.
E de qualquer maneira depois de uma música triste pode vir uma alegre.
A verdade é que a ouvir músicas como Elizabeth On The Bathroom Floor não consigo deixar de sorrir e me sentir mais animada porque o último sítio onde queria estar era deitada no chão da casa-de-banho à espera de morrer.
E de qualquer maneira depois de uma música triste pode vir uma alegre.
18 September 2006
tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la
Deus sabe que nunca na vida pensei que ia gostar de um texto do Miguel Esteves Cardoso, li O Amor é Fodido até meio antes de desmaiar de tanto tédio e nunca, mas nunca consigo terminar uma crónica dele (agora já nem as começo) mas este texto comoveu-me e merece ser lido. Até ao fim.
O Elogio do Amor
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
O Elogio do Amor
"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas.Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas. Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banançides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
17 September 2006
week - end, begin, in between?
A miúda estranha, geek, workaholic, parva (escolham) que há em mim tem uma certa queda por trabalhar ao fim-de-semana... A verdade é que eu sonho com trabalhar sempre um dia do fim-de-semana se o pudesse trocar por um dia da semana "útil". Os fins-de-semana são mais sossegados e numa terça-feira sempre poderia ir a um museu quase vazio, partilhando arte com reformados e adolescentes em visitas de estudo. Ao domingo a minha sala ficaria vazia, e eu poderia ouvir a minha música sem incomodar os colegas. A sério, não seria assim tão mau.
O meu plano é muitas vezes colocado em acção mas até agora não está ainda apurado porque, na realidade mesmo trabalhando ao fim-de-semana tenho que trabalhar nos outros 5 dias "úteis" (lá se vai o museu à terça, damn). Por outro lado acho que os meus colegas decidiram copiar-me porque o atelier está cheio ao domingo o que manda para o boneco a exclusividade da minha playlist.
O meu plano é muitas vezes colocado em acção mas até agora não está ainda apurado porque, na realidade mesmo trabalhando ao fim-de-semana tenho que trabalhar nos outros 5 dias "úteis" (lá se vai o museu à terça, damn). Por outro lado acho que os meus colegas decidiram copiar-me porque o atelier está cheio ao domingo o que manda para o boneco a exclusividade da minha playlist.
14 September 2006
12 September 2006
dos dias felizes
preguiça; do Lat. pigritia ; s. f.,
aversão ao trabalho;
tendência viciosa para não trabalhar;
negligência;
indolência;
inacção;
mandriice;
corda que dirige o peso dos guindastes;
pau a que estão pregadas as cangalhas da canoira;
Zool., mamífero desdentado do Brasil.
aversão ao trabalho;
tendência viciosa para não trabalhar;
negligência;
indolência;
inacção;
mandriice;
corda que dirige o peso dos guindastes;
pau a que estão pregadas as cangalhas da canoira;
Zool., mamífero desdentado do Brasil.
11 September 2006
onde estavas tu no 11 de setembro?
Em 1989 Michael Glawogger fez um documentário chamado War in Vienna. Não tive oportunidade de o ver quando passou no festival Indie mas a sinopse ficou-me na cabeça. Em War in Vienna Glawogger filma 4 dias do quotidiano dos vienenses contrastando-os com os noticiários diários. O resultado deve ser desconcertante e ao mesmo tempo familiar.
Quantas vezes não pensámos o mesmo? Quantas vezes não olhámos para imagens horrorosas em noticiários para logo em seguida irmos cozer esparguete ou sairmos para ir comprar o pão. Genocídio no Darfur, ataques no líbano, bombas no iraque já nem nos fazem pestanejar. É tudo tão distante.
No dia 11 de Setembro de 2001 passei o dia enfiada na loja das plotagens a tentar terminar o trabalho de Desenho Urbano que precisava de entregar. A rapariga da loja
dizia "oh, um avião foi contra as torres gémeas de nova iorque". Eu impassível apenas disse "sim, sim, e essas plotagens saiem ou não saiem?" Não me interessava, nem queria saber. Só quando cheguei a casa, depois de tudo entregue, percebi.
Dizem que o 11 de Setembro mudou o mundo. Sim, o nosso mundo, o mundo ocidental. Agora trememos porque agora pode acontecer aqui. Agora olhamos desconfiados para turbantes, peles morenas, misturando religiões, culturas, nacionalidades. Agora aceitamos ser controlados, vigiados, revistados porque temos medo. Mas, como se nos fosse indiferente, continuamos a cozer o esparguete e a ir buscar o pão.
Quantas vezes não pensámos o mesmo? Quantas vezes não olhámos para imagens horrorosas em noticiários para logo em seguida irmos cozer esparguete ou sairmos para ir comprar o pão. Genocídio no Darfur, ataques no líbano, bombas no iraque já nem nos fazem pestanejar. É tudo tão distante.
No dia 11 de Setembro de 2001 passei o dia enfiada na loja das plotagens a tentar terminar o trabalho de Desenho Urbano que precisava de entregar. A rapariga da loja
dizia "oh, um avião foi contra as torres gémeas de nova iorque". Eu impassível apenas disse "sim, sim, e essas plotagens saiem ou não saiem?" Não me interessava, nem queria saber. Só quando cheguei a casa, depois de tudo entregue, percebi.
Dizem que o 11 de Setembro mudou o mundo. Sim, o nosso mundo, o mundo ocidental. Agora trememos porque agora pode acontecer aqui. Agora olhamos desconfiados para turbantes, peles morenas, misturando religiões, culturas, nacionalidades. Agora aceitamos ser controlados, vigiados, revistados porque temos medo. Mas, como se nos fosse indiferente, continuamos a cozer o esparguete e a ir buscar o pão.
08 September 2006
the geek in me #4
Saía para as compras e em vez de roupa, sapatos, perfumes chegava casa excitada com o seu novo disco externo portátil 320 Gb, 7800RPM, porta usb 2.0...
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