27 September 2005

manecas costa


Se há coisa que viver no Japão me ensinou é como a nossa vida pode ser tão reduzida se nos fecharmos às outras culturas. A cultura europeia/ocidental é fantástica mas a vida fica tão enriquecida quando deixamos entrar outras... seja por viagens, pessoas, literatura, gastronomia ou música...
No meu iTunes agora anda a bombar Manecas Costa, brilhante músico guineense, que aparentemente deu um show em Monsanto há uns tempos! (Bem jogado Heli!!! Adorei!)

Se gostam de música da Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola e outros países que tais vão urgentemente ao B.leza que, ouvi dizer, vai fechar ,mais dia menos dia. Se nunca ouviram ao vivo e nunca lá foram, aproveitem a dica mesmo! O espaço é lindíssimo, cheio de classe, a música é muito boa e sempre podem dar um pezinho de dança... Até já lá vi o principe Kyril da Bulgária, ah pois!

25 September 2005

agenda cultural

pedroines

Para quem, como eu, conseguiu perder 3 vezes o belíssimo e estonteante bailado Pedro e Inês, coreografia Olga Roriz, cenário João Mendes Ribeiro, trago boas notícias (aos lisboetas pelo menos) !
O mesmo vai estar outra vez em palco no Teatro Camões de 7 a 9 de Outubro!
E eu já tenho o meu bilhete.

23 September 2005

follow me


Stepping stones in Heian Shrine, Kyoto
copyright sushi lover

Porque eu não gosto de Rodin ou Ticiano, todos me dizem que sigo um mau caminho. E porquê? Se cada um se fiasse no caminho que nos aconselham nada de mais se fazia, pois que eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas.

Amadeu de Souza-Cardoso

21 September 2005

mais de 9 anos

Do Rato ao Chiado vai-se pela Rua da Escola Politécnica e passa-se mesmo em frente à Procuradoria Geral da República. Há mais de 9 anos que semanalmente vejo sempre as mesmas pessoas a reclamar. Se calhar é mensalmente. Começaram com um lençol enorme que explicava a história toda e que foi reduzindo de tamanho. Coemçaram por ser tantas pessoas, agora é sempre apenas um casal. Nunca consegui entender completamente o enredo da novela que mete um juiz de beja e uns notários que legalmente "mataram" não-sei-quem (acho que não fisicamente só a figura legal), certidões de óbito, divórcios e testamentos. Uma embrulhada com contornos tenebrosos que, pelos vistos, não há meio de se desenvencilhar... Em 9 anos, sempre ali a passar, tanto aconteceu na minha vida! Isso é que me faz confusão!

I will aim towards the sky

Bem sei que daqui a um (curto, muito curto) tempo vou estar algures a ser escravizada nalgum atelier fazendo das tripas coração para encontrar alento no trabalho monótono e repetitivo do operador de autocad ou construtor de árvores para maquetes.
Nessa altura vou olhar para estes meses de “desocupação” com melancólica saudade e repetir para mim mesma onde é que raio estavas com a cabeça quando disseste que querias trabalhar? e pensar porque é que passava os dias angustiada ai-pobrezinha-de-mim-que-não-sei-como-vai-ser-o-meu-futuro em vez de aproveitar cada segundo de liberdade para fazer tudo o que sempre quis fazer antes e não tinha tempo... Seja lá o que isso for! Nessa altura de certeza que o meu futuro, pelo menos durante um ano, vai ser bem certo (a não ser que contemple a sombra do despedimento) e vou lembrar saudosamente estes dias.
A questão é que, pela primeira vez na minha vida, não sei mesmo o que vou fazer a seguir e tudo o que possa desejar como, sei lá... um emprego fabuloso em local fantástico, não depende exclusivamente das minhas maravilhosas capacidades!

Mas se ao menos toda a gente parasse de perguntar “Então, o que tens feito?”

15 September 2005

memória

A prova mais evidente de que os comprimidos com vitaminas, sais minerais e extracto de ginseng que decidi tomar para tentar recuperar a minha boa memória não estão a funcionar é que me esqueci de comprar uma nova embalagem...
Dinheiro deitado à rua... Terei de viver com esta amostra de alzheimer precoce. E post-its, milhões de post-its...

13 September 2005

globalização à porta de casa

Se até concordo que a globalização da economia pode ser prejudicial para os países pobres e em geral para todos ao criar redes de inter-dependência demasiado fortes e não defendendo as economias locais e um crescimento sustentável sou, em geral, uma forte defensora da globalização!
Da economia não me vou alongar porque não percebo nada disso.
Agora, dessa globalização social, cultural, intelectual... ahh! é maravilhosa!Nunca vivemos tempos tão bons para saber mais doutros países, doutras culturas, de podermos viajar nelas, de podermos viver nelas. Nunca podemos saber tanto sobre países distantes como o Burkina-Faso ou o Japão, e experimentá-los quando quisermos ou podermos! A globalização é tudo isso, é a itinerância mundial do conhecimento! É a itinerância mundial de pessoas! Que melhor maneira de conhecer outras culturas que falar com as pessoas dessas culturas, conhecê-las e perceber as distâncias mas principalmente os pontos que nos unem a todos mundialmente como seres humanos!

A globalização também é encontrar por acaso na mercearia do bairro 2 amigos japoneses correntemente a trabalhar em Lisboa... A jantarada japonesa já está combinada!
It's a small world and I love it!

11 September 2005

onde é que você estava no 11 de setembro?

Há 4 anos, no dia 11 de Setembro, eu e a Catarina estávamos numa pilha de nervos para a entrega final de Desenho Urbano. Desde cedo na loja das plotagens só queríamos ver o trabalho de um ano inteiro (e um Verão sacrificado) impresso sem falhas, dobrado, enfiado na capa e abandonado à sorte docente... O que mais me preocupava era que o hatch tivesse saído bem, que não houvessem legendas trocadas. A rapariga da loja bem que disse: "despenhou-se um avião contra as torres gémeas em Nova Iorque!" e eu "sim, sim, que horror, e as plotagens, isso sai ou não sai?", sem me interessar no que parecia só mais um acidente no mundo.
Só muitas horas depois, já em casa, intrigada pelos incessantes burburinhos no bar, no autocarro e na rua, vi as terríveis imagens e alcancei a dimensão da tragédia. E literalmente a imagem valeu por mil palavras.

ainda o Katrina

Para além de toda a tragédia humana que o Katrina expôs era bom pensarmos realmente o quão frágil estamos perante a força da Natureza e como a menosprezamos diariamente em gestos arrogantes que ciclicamente se voltam contra nós.
Muita da desgraça de New Orleans foi provocada pelos seus próprios habitantes e planeadores. A desvastação não teria sido tão grande se toda a cidade não estivesse construída 60 cm abaixo da linha do mar, com um sistema de diques e bombas, impreparados para algo como o Katrina.
Daqui se deviam tirar ilações aplicáveis a outras cidades como... Lisboa.
Lisboa, onde se constrói em leitos de cheias como Alcântara, onde se interrompem rios subterrâneos com túneis de metro e rodoviários como no Marquês de Pombal, onde se alteram as oscilações das marés que durante 3 séculos têm mantido a Baixa de pé com a contrução de parques de estacionamento.
Se as previsões do aumento do nível das águas em 1 metro em 50 anos se confirmarem pensem bem no que será destruído em Portugal. Locais como a Costa da Caparica simplesmente deixarão de existir (estarei a imaginar uns sorrisos?). Mais longe, os Países Baixos deixariam de existir.
A-s-s-u-s-t-a-d-o-r.

Quem semeia ventos, colhe tempestades.

descivilização

"A grande lição a tirar do Katrina é que a civilização em que vivemos é protegida por uma camada extremamente fina. Basta um abalo e ela estala, passando a lutar furiosa e instintivamente pela vida como cães selvagens.
Pensam que as pilhagens, as violações e os assaltos à mão armada que eclodiram em Nova Orleães nunca teriam acontecido na maravilhosa e civilizada Europa?"

" A questão básica é a seguinte: se retirarmos os elementos essenciais da vida organizada, civilizada - alimentação, abrigo, água potável, segurança individual mínima -, em poucas horas voltamos a um estado natural "hobbesiano", à guerra de todos contra todos."

"Não consigo evitar uma sensação de que aquilo que ali se passou se repetirá, muitas vezes, com o avançar do século XXI. Existem demasiados problemas emergentes que poderão fazer retroceder a humanidade. A ameaça mais óbvia virá dos desastres naturais resultantes das alterações climáticas. Se este cataclismo for interpretado por políticos americanos como John McCain como um "aviso" para alertar os cidadãos sobre as consequências de os Estados Unidos continuarem a lançar dióxido de carbono para a atmosfera como se não existisse o dia de amanhã, então a tragédia do furacão Katrina terá algum consolo. Mas poderá ser tarde demais. Se estiverem correctas as informações recentes de que não são só os glaciares que estão a derreter, mas também o subsolo da Sibéria, e de que esse degelo poderá gerar maior libertação de gases com efeitos estufa, poderemos ser lançados numa espiral imparável. Se tal acontecer, se grandes zonas da terra forem atormentadas por tempestades, inundações e alterações de temperaturas imprevisíveis, então o que aconteceu em Nova Orleães não passou de uma brincadeira de crianças."

E outras questões importantes e pertinantes são muito bem expostas no texto de Timothy Garton Ash publicado no Público de 11 de Setembro, donde retirei estes excertos. A ler.

10 September 2005

há novidades nos links

it haunts my dreams

Desde que mandei um mail ao meu professor japonês do Algarve (mencionando esse facto, i.e., sol, praia, doing nothing aaallll day) que o tipo decidiu passar a vida a chatear-me que eu gostava demasiado da (boa) vida para ser uma mulher de sucesso, entenda-se com prestígio e dinheiro. Pronto, fiquei traumatizada e o melhor é aceitar o meu destino e... ir para a praia!
Vai-te lixar ó Ando Sensei! Sabes lá como é a vida para lá do betão e das meetings, das 4 horas diárias de commuting e destilas as tuas frustrações em sake! Ainda me vais ligar um dia para eu colaborar contigo num projecto qualquer! Em Okinawa!
Ai, prestígio e dinheiro... doce ilusão! Um professor um dia, em palestra a alunos de 1ºano, disse: “Disseram-me: queres ser rico? Vai para Arquitectura”... AAAAAAAHHHHHHHHHHAAAAAAAAHHHHHHH. A piada do século! Ai, não fossem 10 da manhã num anfiteatro escuro com um tipo aborrecido, ou seja, não estivesse tudo a dormir e tinha sido gargalhada geral. Não, na altura acho que ninguém sabia sequer o que estava para ali a fazer. Hoje também não. Mas já sei que não vou ser rica.

09 September 2005

but songs... they are never quite the answer... just a soundtrack to our lives

Disse o Badly Drawn Boy (que quer dizer rapaz mal desenhado e eu não consigo deixar de pensar em rapaz mal afogado... brrr, que mau-gosto).

Tenho uma colecção muito selecta e involuntária de músicas que cada vez que ouço me transportam a outros tempos e a outras pessoas da minha vida. Canções que em dado momento foram ouvidas sem parar "ao expoente da loucura" associadas a um específico sentimento por outra pessoa ou estado de espírito e que depois ali ficaram agarradas a esses momentos ou a essas pessoas.
O que leva uma canção a tornar-se especial a dado momento é completamente imprevisível... Pode ser a letra, um acorde, um título, tê-la ouvido numa ocasião especial ou que se tornou especial por causa da música... qualquer coisa, o que a mim própria me surpreende. Quando recuperadas, soltam esses momentos de felicidade (ou não) com um pouco de pó de melancolia e muito frequentemente fazem-me soltar lágrimas... Não deve haver muita gente que chore a ouvir Pulp, Pixies, Dave Matthews Band e outros que tais...
Se calhar dava um boa actriz dramática... Uma qualidade tenho: é tão fácil fazer-me chorar!

sei que estou com saudades

(e a perder o discernimento) quando no clube de vídeo olho embevecida para um filme do Steven Seagal só porque se chama Yakuza e presume-se ser filmado no Japão...

ps: não, não o levei...

08 September 2005

06 September 2005

meditação

Pois sou eu e o Mário Soares. Calcorreamos os areias da praia de Alvor dum lado para o outro em meditação... Ele: "Devo candidatar-me? Um manguito para esses pirralhos que acham que estou velho! Será que ganho? Será que vou deixar de ir tantas vezes a Paris? Será que tenho que deixar de calcorrear este belo areal e cruzar-me com aquela sereia minha quase de certeza eleitora?"
Eu, é mais... "Será que o segurança traz naquela inofensiva toalha uma arma? E se, para o ano, o tipo é presidente e há um terrorista na praia e eu sou apanhada em fogo cruzado? Hmmm... Como nunca vou à praia dos Tomates se calhar voto Cavaco! Hei, é pela segurança do mais fantástico areal algarvio..." Ah ah! Queriam, não queriam? Nunca na vida hei-de votar nesse senhor!
Eu, que gostei tanto do discurso do Manuel Alegre (até o nome respira positivismo), que já estava pronta a entregar-lhe o meu voto, já a pensar na beleza dos discursos do 10 de Junho a que já me propunha assistir pela primeira vez...
Mas venha o Marocas e... não pensem que isto vão ser favas contadas, mas digo-vos o homem está mais que pronto para o combate!

Melhor está ele mesmo que já sabe o que vai estar a fazer em janeiro... Já eu, arrasto-me nesta indolência e penso, penso muito e penso mais ainda sobre onde apontar a minha direcção... mas a incerteza, as dúvidas entre o que sou, o que quero e o que vou fazer... pfiuuuu... boooriiing boring! A luz chegará!

não foi

Não foi o calor (que nem era muito), não foram as wc imundas (que nem o eram assim tanto), não foi o duche misto ao ar livre e frio (que até é divertido), não foi dormir com frio no chão com altos e baixos, nem foi acordar cheia de calor com este sol impiedoso-criador-de-estufas. Muito menos foram os fantásticos mergulhos no gelado rio coura, ou o esticar na relva ao sol. Não foi o pó nem a indisponibilidade de roupa lavada.
O que verdadeiramente me chateou no Festival Paredes de Coura foi... o barulho.
O barulho, não a música que essa encheu a minha alma. Foi o non-stop de puro, irritante, está-a-dar-me-cabo-dos-nervos barulho. Porque é que a seguir a 5 horas de concertos abrem uma discoteca ao ar-livre? Pior, porque é que essa animação (onde confesso dei um pézinho de dança) se arrasta por outras 5 horas? Impossível descansar. E depois são os grupos de alegres convivas que, já sem tímpano, gritam e saltam ahh viva a juventude... Quando tudo parece acalmar das duas uma (das duas as duas, só não sei quem chegou primeiro): chega o sol impiedoso que te faz arrastar para fora da tenda para o meio das silvas, ou... chegam os trabalhadores do festival, da segurança, das barraquinhas, do raio-que-a-parta, que encostam todos em alegre e barulhento convívio!
O dia segue num suplício em busca de silêncio... Derreada por falta de sono, arrasto-me até ao rio ahhh-aqui-vou-descansar-e-ouvir-os-passarinhos... Qual quê... Em 10 minutos estou rodeada, "passa-me uma carta!", "eh pá! Tinha um jogo tão bom e não ganhei", "pós sim que pór supuesto e nha nha nha nha nha" em decibeis claramente ilegais deste lado da fronteira e tanto bla bla bla bla bla... Donde é que esta gente saca a energia? Depois é a aula de yoga (oh! sim!), os meninos dos tambores (die suckers!), o sound check, o jazz na relva...
aaarrrrgghhhhhh!
Quando finalmente deslizo para o recinto já os meus ouvidos estão entupidos!

Mas tudo está bem quando acaba bem e eu simplesmente adorei o Festival, bem os dois últimos dias, pelo menos!
A revelação para mim foi o Nick Cave, de quem ERA semi-fan e nunca tinha assistido um concerto e agora quero venerar este deus até ao fim dos meus dias!
Arcade Fire (a quase única razão da minha peregrinação ao extremo norte do país) foi fantástico, o som tava uma merda, mas foi lindo ver que tanta gente já os conhecia.
Com tal reacção dizia eu "Vais ver, daqui a uns minutos vão dizer que nunca viram coisa assim, que antes nem sabiam onde era Portugal e agora vão voltar todos os anos!". E no fim, já dizia o vocalista "Uau, fantástico, nós temos que ir embora mas não queremos!!!" Já cá cantam!
Pixies é Pixies, e é sempre bom, nem que seja para gastar as minhas cordas vocais e "meus males espantar".
Queens of the Stone Age, tive medo, muito medo... bolas que potência! Mas um bocadinho alto, não?
Vincent Gallo tocou músicas bonitas fora das rotações do Festival, mas o homem é um entertainer puro e gosta muito de falar. Ficámos a saber da sua histórica relação com Portugal, cheia de detalhes... Gostava eu de saber se aquela história do hotel era verdadeira e... se alguém foi!
Juliette Lewis, pois... é ela! Muito show-off, muito cabelinho a rodopiar e perninha torta a abanar. Sem música propriamente original e letras oh-my-god ainda assim eu diverti-me!

Com um cartaz assim volto para o ano! Mas please alguém tem uma casinha perto de Paredes de Coura?

nada temam:

I'm back! É a "RANTRÊ"!!!!

12 August 2005

voyage voyage

Foi num fôlego que dei a volta ao mundo pelas letras de Gonçalo Cadilhe. Penso no que será viver a viajar. Penso no que é estar ano e meio sozinho, com amigos ocasionais e temporários. Acordar todos os dias num local diferente e distante. Penso no que será voltar a casa. E o que é que se faz depois?

10 August 2005

então o que é que fizeste hoje?

-Pufff... Acordei em Buenos Aires, apanhei um cargueiro no Panamá onde viajei e enjoei muitas horas... Não tivesse parado na Polinésia...
-Ah, continuas a ler o livro do Cadilhe.

09 August 2005

viajar para escrever ou escrever para viajar

2 motivos me levaram a criar o meu blog anterior. Corrijo, um motivo e duas pessoas. O motivo era a minha mudança para o Japão, uma das mais fortes experiências da minha vida. A ideia de escrever sobre isso começou a germinar muito antes quando lia, religiosamente todos os sábados, a crónica “À Volta do Mundo” do Gonçalo Cadilhe, muito antes de saber que iria para o Japão. Recortavas as crónicas e reli-as imaginando se algum dia faria algo de parecido.
A ideia começou a ganhar forma depois de descobrir a escrita de outro viajante, Wenceslau de Morais, o consul português no Japão do princípio do século XX, que se apaixonou pelo Japão e aí viveu até à sua morte em 1929. Wenceslau de Morais escrevia cartas regulares que, se não me engano, eram publicadas no Comércio do Porto. As suas cartas retratam a realidade japonesa com sensibilidade e perspicácia e ilustran uma fascinante perspectiva ocidental sobre o Oriente.
Tudo isto porque acabou de ser publicado “Planisfério Pessoal”, o livro que recolhe as crónicas de Gonçalo Cadilhe publicadas pelo Expresso, e que chegou ontem às minhas mãos. Leio, imaginando se algum dia farei algo de parecido...

07 August 2005

indolência mediterrânica

Thomas, o alemão escreve-me preocupado com as notícias sobre os fogos em Portugal... Se eu estou bem. Entretanto é Verão na Alemanha também, o que significa que ele arranjou um emprego de Verão na revista Detail, uma das bíblias do arquitecto. Estão 42º em Castelo Branco e não consigo pensar. Não vejo incêndios mas o cinzento no céu não me deixa esquecer que Portugal arde por aí fora. Empregos de Verão na europa do norte. Em Lisboa a cidade fecha para férias.

06 August 2005

hiroshima

hiroshima

Enquanto houver uma arma nuclear no mundo não teremos paz.

04 August 2005

oh get me away from here I'm dying

Tenho uma obsessão. Passeio por todos os sites de lowbudgets, pelos leilões da tap, pelas agências de viagem, à procura das promoções que me tirem daqui para algum lado. Mas eu não quero ir a lado nenhum e não consigo escolher nenhum destino (invariavelmente olhar para a conta do banco destrói-me as ilusões).
Mas precisava de sair daqui. Para no inebriante do desconhecido não pensar nos impasses em que estou enfiada.

02 August 2005

sushi lover & zeee gerrmans. take9.

Me - so can you send me the cd?

German – sure, but I can’t do it right now.

Me – oh, don’t worry, whenever, no rush…

(a week later is a package at my door with the stamp of the day after I asked –

that’s when I love them - R.E.S.P.E.C.T.)

sushi lover & zeee gerrmans. take8.

I send an sms at 2am saying: “Tomorrow meeting for dinner at 20.00”

The next day I call the german at 20.30 “Where are you?”.

Reply: “Isn´t the dinner tomorrow? You said tomorrow!”

Me- “Today is tomorrow!”

German- You sent the message at 2 am!

Moral:
For a german the day starts at midnight.
For me it starts in the morning.

sushi lover & zeee gerrmans. take7.

Me, being polite as my mother told me - oh, thank you for your invitation but I’m sorry I can’t go. I have a meeting with the professor. I’m very sorry.

German – why are you apologizing? It’s not your fault. You don’t have to be sorry.

Me, trying to explain portuguese politeness – I know that. I’m not exactly sorry, it’s just a matter of speaking. Being polite, understand?

German – Hmmm...

sushi lover & zeee gerrmans. take6.

German – I’m calling to tell you that I’ll be 15 mn late.

Me – please can you come 30 mn late? I still haven’t shop the groceries

German – oh, the lovely Portuguese

(german arrives as planned 30 mn late)

Me – well, actually I haven’t start to cook but have some wine!

sushi lover & zeee gerrmans. take5.

Me – ok, tomorrow at 09:00 in the lobby

German (08:57) – (knocks at my door) Are you awake? Let's go?

sushi lover & zeee gerrmans. take4

Someone (after watching an amazing and weird movie) – Uau! I don’t know how they make this movies…

German – well, they have the idea, and then they make the movie.

Everybody – aaaaaaaaaa………

sushi lover & zeee gerrmans. take3.

German – I think I saw last year some news that snowed in Lisbon

Me – That’s impossible, it never snows in Lisbon. I think only once in the 60’s that happened.

German – no, I’m pretty sure it was Lisbon

Me – nope!

German – almost sure

Me – Hey! May I remind you that I’ve been living there more than 20 years. It wasn’t Lisbon.

German (to the greek girl) – does it snow in Athens?

Greek – Yes, sometimes.

German – Ah. Then it was in Athens. I was sure it was a southern country.

sushi lover & zeee gerrmans. take2.

Me, polite – I think we are lost. I’ve been here before, I think we should go down this road.

German – We are not lost. It’s that way [usually opposite]!

Me, sarcastic – ok, I like walking anyway.

01 August 2005

irasshaimase!

Irasshaimase quer dizer Bem Vindo em... olha, que estranho, japonês!

Irasshaimase é uma das palavras mais ouvidas no Japão à entrada de... basicamente qualquer sítio onde vendam qualquer coisa... restaurante, café, supermercado, sapataria, etc...
É normalmente gritado em tons agudos, quase histéricos a romper com os tímpanos, em coro por todos os funcionários da loja, restaurante, café, supermercado, etc...

Pois é para vocês este irasshaimase silencioso! Bem vindos ao meu blog, onde nada se cria, nada se perde e tudo se tranforma!

um dia, uma foto

O Benjamim tem um blog (e quem não tem?)com uma missão diferente. Bem, pelo menos com uma missão. O Benjamim propôs-se a colocar uma foto por dia durante um ano. Já lá vão quatro meses e continua inquebrável e de altíssima qualidade. Aqui.
Há que tempos que queria pôr o link...
Agora até tem direito a post! Continua a fotografar Ben!

bimbo, não com muito gosto!


Esta nova publicidade do pão Bimbo deve soltar uns sorrisinhos irónicos a quem sabe japonês... É que bimbo, em japonês, quer dizer... pobre.

Dieta de pobre?!
Pobre?! Com muito gosto?


Não me parece!

"mulher de 40, não quero saber do teu passado, só quero ser teu namorado"


Quando acordei naquele sábado com um sms para uma festa relampago a 100 km de Lisboa nem me passava pela cabeça que ia acabar a noite a ouvir Marco Paulo ao vivo.
Foi a primeira vez que o ouvi ao vivo tenho que dizer que o homem é um profissional e tem uma voz espectacular. Ainda canta sucessos dos anos 80 porque não deve haver muita gente que conheça os mais recentes... Houve alguém que descobriu pela primeira vez que frases como "mexe e remexe", "louca na cama, lady na mesa" e "taras e manias" são uma única música. Ficámos a conhecer, no alinhamento final do concerto, que "Amor Eterno", "Nossa Senhora" e "Mulher de Quarenta" são todos possíveis grandes sucessos do mais recente album do último cantor romântico do país...

Ai, o Verão...

26 July 2005

"the sun never shone that day"

a-ha na minha cabeça, no dia em que tinha decidido ir à praia.

sushi lover & zeee gerrmans. take1.

Me, to the group on a monday - … yeah, could be an idea to go out Thursday or Friday…. [a tooooottally vague idea]

German (pulling out his agenda) - which one? Friday or Thursday? I still have both free. And what time? And where do you want to go? Should we have dinner first?

Me (trying not to scream) - … can we decide later? Like the afternoon before?

zeeee gerrmans… esse ser estranho

São um povo intrigante. São o maior número de estrangeiros que conheço e com os quais mantenho as mais duradouras relações de amizade mas também é com os quais vivo numa permanente relação amor-ódio.

Os alemães são imensos e estão por todo o lado (pelo menos, todo o lado que eu vou). Gosto deles. Apelam muito à minha necessidade de organização, que passo a vida a queixar-me de não ter.

Admiro-lhes a perseverança, quase obstinação. Quando querem uma coisa, lutam por ela de um modo paciente e metódico, completamente impermeáveis a opiniões alheias.

Parecem-me, em geral, interesseiros e não perdem tempo com ninharias. Não gostam muito de gastar o tempo pelos cafés.
A não ser no país deles, falam bem inglês e sem sotaque. Avisam se vão chegar 2 minutos atrasados.

Durante alguns minutos tem piada a mania que sabem tudo, enquanto vão mostrando que realmente sabem muito. A piada acaba quando não sabem aceitar uma crítica ou simplesmente, que estão errados num qualquer assunto.

A sua mania-que-sabe-tudo-quase arrogante pode criar situações hilariantes como a do meu colega alemão que adorava dar explicações sobre temas japoneses... a japoneses!! Mas não há decoro? Mesmo que ele tivesse razão e estivesse a explicar algo que eles verdadeiramente não soubessem....

Mas não consigo ficar muito tempo perto de um alemão. A tensão, a ideia que cada palavra é analisada e, o mais dificil, a minha incapacidade de fazer entender o meu sentido de humor... A minha crónica má relação com o relógio leva-os a subir pelas paredes, mas nunca há berraria, o mais provável é, simplesmente, irem embora e não esperarem.
A sua rigidez e falta de espontaneidade deixam-se tensa e pouco à vontade.

No entanto facilmente crio empatia com um alemão e como já disse tenho bastantes amigos alemães. Eles gostam de mim. Eu gosto deles. Mas em pequenas doses. Um alemão é uma prova de treino para toda a minha diplomacia. Falta-lhes... alegria?

O meu sonho é ser organizada e obstinada como um alemão e manter o easy-going e joy-de-vivre latina... Hei-de lá chegar.

25 July 2005

mas os talvez são piores

E porque é que tenho que ser eu a fazer tudo? Quando já se sabe nunca deu bom resultado. A auto-estima segue dentro de momentos. Isto tá um bocado pessoal, não está? E sem muito interesse... Que se lixe.

não fui, não fiz, não disse

tanto na nossa vida é determinado pelos nãos que causamos ou que nos causam.

não fui...

...mas na minha varanda consigo ouvir o Tito Paris a cantar lá em Monsanto. Bons ventos.

23 July 2005

euro milhões

Não gosto de jogo. Repugna-me a ideia de a sorte poder jogar contra o trabalho e a esforço.
Agora 97 milhões...

22 July 2005

mais olhos que barriga

Miso soup... maki-sushi... tempura... gyoza... karage...

Como uma criança numa loja de brinquedos fui ontem a um restaurante japonês e saí a rebolar. Ainda estou cheia. E com um sorriso. Mas isso até pode ser por outros motivos. A lua cheia, por exemplo.

sushi lover, a internacional

Ele é japoneses que chegam, ele é italianos que já cá estão, ele é imigrantes portugueses que regressam...
Quem disse que o Verão é para relaxar?

ps: Obrigada pelas dicas, fosse eu uma menina auto-mobilizada e levava-os eu de automóvel.Bem... até ao Cabo Espichel pelo menos... Hoje ou amanhã parece que vai ser um jantar de fados.

21 July 2005

damedayo! help!

No Japão tive uns alunos de português.
Que chegam hoje a Portugal.
E que querem ir ao Cabo da Roca e a Óbidos e depois a Coimbra, mas não têm carro!
Perguntaram-me qual era o comboio (!?) e eu... não faço ideia de como se chega a ambos os locais sem ser de automóvel!
Pedido à blogosfera que está a ler: Alguém sabe como se chega ao Cabo da Roca ou a Óbidos (e como é que de Óbidos se vai para Coimbra) sem automóvel?

20 July 2005

o quê?

Já passaram dois meses?
E o que é que eu fiz? E o que é que eu fiz?

fading out #2

Encontrei um japonês. Um japonês que conhecia, ok? Ainda não comecei a falar com todos os que têm olhos em bico! Ainda!
Encontrei um japonês e tentei falar japonês. Não me lembrava de nada. Ok, não seria difícil porque eu não sei falar japonês. Mas em Tokyo sempre dizia umas coisinhas, uns boa tarde, uns números... Agora míseros 2 mesitos depois... parece que o Tico e Teco querem arrumar novas coisas, mas o QUÊ? se nada se passa por aqui? Deve ser o "24"! Ou tentar juntar o puzzle todo e juntar os nomes às caras dos Quase Famosos! Sayonara escassos conhecimentos dessa língua demoniosa!

porque é que os japoneses nos passam a perna

Trabalham 15 horas por dia e dizem que estão de férias.

ando com os dias muito ocupados

Juntei uma miúda preguiçosa, um leitor de dvd e a série II do "24". Mistura bombástica.

Tive que sair de casa para trabalhar. Não cheguei à paragem do autocarro.

17 July 2005

and we keep playing PARTY

Mais uma moeda mais uma voltinha e ontem houve festa outra vez, graças a este senhor e outro que parece era o dono da casa mas não me lembro de o ver! Parecia uma okupação! Testámos a resistência de estruturas seculares e houve quem até desafiasse a lei da gravidade. Houve boa música com direito a National Express dos Divine Comedy (há uma data de Gajos i.e. Deuses no Céu, mas só há um Neil Hannon na Terra).
Vim com um cd para casa que até tinha Arcade Fire (quem, eu obcecada? Eu juro que ouço outros cd's!). Não são como uns e outros...

Fiuuu, estou estoirada, ainda bem que o fim-de-semana acabou!

perdoem-me os eruditos e fans...

... mas eu não consigo gostar de Stravinsky...
Aquela Sagração da Primavera com uma coreografia, enfim, com momentos bons e outros bem aborrecidos, e um técnico de luz de férias... arrasaram-me os nervos entre bocejos...
E porquê, porquê, PORQUÊ MEU DEUS acabaram com o Ballet Gulbenkian!?!?!

16 July 2005

PLAY: Party

Caros dijais quase famosos,
Venho por este meio agradecer a efeméride festiva da noite passada.
Nem mesmo em Tokyo ouvi tal selecção musical que muito agradou ao meu ouvido e aos meus ossos que se abanaram como há muito não. E ainda deu para confirmar as minhas suspeitas e conhecer o durão!
Quando cheguei estava um rapaz de t-shirt branca, com óculos a bombar it’s the end of the world as we know it... :). Ouve um momento mais obscuro com o rapaz de t-shirt preta “bla bla bla” mas ainda assim interessante.
O momento eclético missy-elliot-franz-ferdinand-scissor-sisters já não sei quem estava a bombar agradou à minha pequena comunidade bailante.
A dupla camisa branca/t-shirt azul “wedding present” (olha lá, o outro também de óculos e t-shirt azul é teu irmão? Caramba são iguais!) foi a que mais gostei. Digo dupla porque sempre que olhava ou tava um ou o outro e já não percebia quem é que escolhia os cds. Também já não me recordo bem do alinhamento mas os Stone Roses foram o (meu) momento alto e fiquei muito triste por não terem passado Arcade Fire... Chuiff, chuiff.
Dômo Arigatô Gozaimasu e fico ansiosamente à espera da próxima.

Atenciosamente,
Sushi Lover

08 July 2005

sexto sentido irónico e de mau gosto, ou sobre o post de ontem

Caramba como o post de ontem se revestiu de negro. Até aquele título... agora até me dá arrepios!
Queiram saber os meus leitores que só me ligo com o mundo exterior a partir das 20. As horas anteriores são passadas na Sushiloverland onde não há terroristas e todos vivemos numa anarquia líndissima porque gostamos uns dos outros e porque simplesmente há espaço para todos e ninguém é ganancioso.
Entretanto ainda não sei dos meus amigos que vivem em Londres... mas estarão bem concerteza. Positive Vibes!
Para rematar fui ver o "Colisão" à noite, um filme fantástico sobre a violência latente em Los Angeles. Uma tensão permanente, discriminação racial compontos de vista distorcidos, uma misturada dos caraças em que ninguém escapa, todos já estão demasiados enrolados naquela espiral de violência gritando para serem ouvidos mas surdos aos gritos dos outros.
Assusta-me sempre a violência de quem não sabe a alternativa.

07 July 2005

A razão porque andar de transportes públicos não faz bem a ninguém

A Carris tem um programa de questionamento filosófico sobre o sentido da vida...
Não sabiam? Pois, é apenas para alunos altamente auto-motivados.
Curso de Filosofia on-the-go! Cheira-me que até o Carrilho andou por lá..

No 60 para o Cemitério da Ajuda, via Calvário...
No 23 para o Desterro...

Estas são as minhas disciplinas favoritas... Em que carreiras andam a tirar o vosso curso de Filosofia?

05 July 2005

freedom for my people

Aaaaahhhhhhh... um sentimento parecido com um mergulho no mar em dia quente.
Finalmente terminei a fantástica pesquisa para Tokyo que andava a derreter o meu cérebro desde que cheguei. Um texto de 45 páginas em inglês sobre as iniciativas japonesas no campo da arquitectura sustentável. 45 páginas que ninguém quer ler. O professor do Japão não quer receber. O professor português só quer saber se o professor japonês recebeu. No meio deste interesse estonteante sobre a minha pesquisa, resta-me o que é mais importante: 45 páginas de conhecimento. Para mim. Toma!
Então, como foi o Japão?
Sabes, parece que nunca fui.

30 June 2005

eu tenho dois amores...

...em simbiose numa música...

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

Poema de Fernando Pessoa, cantado por Camané.

29 June 2005

fading out

Quando eu era uma miúda cosmopolita e vivia na capital mais cara do mundo tinha muito mais glamour. A aura do exotismo asiático impressionava qualquer um. Agora que voltei já não tenho a mesma graça, o brilho está mais baço…
Continuo a receber as informações semanais do sitemer do from tokyo with love. É melancólico assistir à progressiva redução do número de visitantes, se bem que para os meus pârametros 20 visitas diárias, quando já encerrei o blog há mais de um mês, não está nada mal!!
Por isso, para vós que continuam fascinados pelo Japão e lamentam que eu não continue por lá a mandar notícias vou deixar-vos uns blogs de malta que ainda anda por lá…
Faz também parte da minha nova campanha vamos-falar-inglês-porque-dá-pinta-e-ajuda-o-estrangeiro-perdido porque são todos em inglês:
An Englishman in Nyu-Gun
Man In Japan
Undercover in Japan
I'm Still in Japan

E desse grande maluco que é o Masa, o Japão visto por um Japonês muito observador!
MasaMania!

Keep enjoying Japan!

28 June 2005

antes que me esqueça

Antes de voltar a estar completamente integrada na sociedade portuguesa um post para a posterioridade sobre o hábito mais odioso do macho que se diz homem. E não, não é escarrar, embora também não seja agradável.
É o piropo foleiro, a boquinha manhosa, o beijinho soprado ao ouvido, todos os “olá beleza”, “dava uma voltas contigo”, “fiuuu, fiuuuu”, “posso-te conhecer?” etc etc que qualquer “vai ver se estou na esquina” só atiça mais piropos agora gritados até ao fim da rua. Isto só para mencionar os mais softs que este é um blog autorizado para todas as idade.
Não, não faz bem ao ego. Não, não tem piada. É arrogante. É má-criação. Transforma as mulheres em coisas. É abusivo. É castrador. Vai uma babe como eu a pensar em como resolver o défice e ... “comia-te toda”... Quê? 3 x 6 são 18... Quê?
Principalmente agora no Verão que, com o calor, só queremos andar de mini-saia e top e antes de abrir o armário... “este não pode ser porque há uma obra no fim da rua”, “...este é muito decotado e depois passo naquela oficina e... naaaa”, saia muito curta, calça muito justa... “querido, diz-me onde é que arrumei a burka?”.
Sim, sim, digam-me que posso ignorá-los à vontade. Por isso até já ponho o meu iPod aos gritos. Mas não posso (faz mal ao ouvido). O desconforto cola-se. É nojento. Corria à paulada todos esses anormais.

A verdade é que acabamos por pôr todos no mesmo saco. Dizia-me um amigo meu português em Tokyo que as miúdas portuguesas estão sempre na defensiva e são brutas quando alguém tenta meter conversa. É verdade e podia ser diferente mas são anos a sobreviver aos trolhas e nerds, a pôr o nariz no ar e fazer ar indiferente para mostrar como somos superiores a todas as merdas que somos obrigadas a ouvir na rua.
Como uma vez que ignorei, com ar petulante, o senhor tão bem educado daqueles que levantava o chapéu e disse “Boa tarde, menina” e estão em vias de extinção. Eu é que fui a mal-educada.
Perde-se o à-vontade e, se calhar, um monte de rapazes interessantes.

Ps: sim, eu sei que é um fenómeno não exclusivamente português mas é por aqui que agora me passeio.

sobre o "arrastão"

O Daniel, neste post, mostra um ponto de vista diferente do que tem sido discutido nos media.
Um tema muito difundido no meio de arquitectos (e sociólogos talvez?) mas muito pouco discutido pelo público em geral é a importância do desenho urbano, do espaço onde vivemos, nos comportamentos sociais.
Re-alojar camadas pobres todos no mesmo sítio e de preferência um pouco longe da cidade, não é resolver problema nenhum mas prolongar ou piorar problemas de exclusão.
Os estigmas de bairros, de grupos, colam-se violentamente e é preciso apresentar soluções, é preciso integrar. E é preciso mudar a maneira de olhar e pensar sobre esses “criminosos”.
Ao texto do Daniel apenas cito o que Brecht uma vez disse, e que ironicamente também menciona arrastões:
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento,
mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem

25 June 2005

my own local desperate house wifes

Desde que fiquei fanática desta série, a minha rua adquiriu uma nova dinâmica. Na minha cabeça, está claro.
Agora, as cuscas à janela já não são mera decoração, agora entretenho-me a imaginar vidas obscuras, cheias de mentira e traição. Imagino quem tenha envolvimentos sórdidos com o carteiro (que isto não é suburbia americana, logo não há jardins quanto mais jardineiros), complots de porteiras, reuniões mafiosas no café do prédio ao lado...
Sim, a minha rua tem muito mais emoção agora. yeah!

23 June 2005

GERTiL: menos estética, mais ética

O GERTiL (Grupo de Estudos de Reconstrução – Timor Leste) foi criado em 2000, na altura do processo de independência de Timor Leste, com o apoio do Comissariado de Apoio à Transição de Timor Leste e da Faculdade de Arquitectura de Lisboa.
Não estou muito por dentro da estrutura, não sei exactamente como funciona.
Mas sei que, desde então, tem desenvolvido inúmeros projectos em diferentes áreas, adquirindo uma importância crucial no processo de reconstrução e desenvolvimento de Timor. O projectos desenvolvidos são frutos das necessidades de Timor desde a reconstrução de escolas (Escola de Vila Verde) à criação de edifícios públicos desta nova nação tão diversos como o Edifício da Presidência da República, o Centro Cultural Uma Fukun, a Administração e Infantário da Santa Casa da Misericórdia, Maternidade-escola ou a Cúria Diocesana de Díli. Nos projectos de arquitectura é notória uma sensibilidade para as tradições locais, para os recursos locais e condições ambientais locais.
Foram também desenvolvidos projectos de design de equipamento escolar, de design gráfico, com a criação de logotipos para a Timor Telecom, para o Turismo de Timor Leste (inserido num estudo mais aprofundado do potencial turístico de Timor Leste que incluiu também a criação de um cd-rom multimédia e interactivo para a promoção e divulgação de Timor Leste).
O GERTiL teve ainda uma acção fundamental no levantamento geográfico da ilha, no recolhimento e organização de bases de dados que levou à elaboração do Atlas de Timor Leste.
É extremamente estimulante ver um projecto tão ambicioso a funcionar com certamente reduzidos meios e recursos financeiros.

Sabe, quem estudou (ou estuda) na FA-UTL que, a maior parte do esforço é dispendido em intrigas, traições e despedimentos de pessoas capazes, que vão mantendo a faculdade numa telenovela latino-americana. Aliás, reviravoltas rocambolescas, com despedimentos em massa, atingiram o GERTiL, mas não destruiram a sua missão, muito menos a sua importância
Grupos de estudo como o GERTiL são exemplos felizes de como as Faculdades podem ter um papel dinâmico e interveniente, e de como os arquitectos podem assumir o seu papel social.
Fazer arquitectura em Timor deve ser um estímulo. Participar num processo de (re)construção de um país e sentir que o que fazemos tem realmente importância e melhora a vida das pessoas. Precisam de ajuda, dj farfalha?

if you want somethin’ don’t ask for nothing

Li no blog. Ouvi 2 músicas, uma no blog, outra na radar. Procurei-os na fnac chiado. Esgotado. Mas há dias de ideias fixas. Não, é hoje. Já adiaste demais, minha menina. Procurei-os na fnac colombo. Encontrei. Ouvi. E a minha vida melhorou. Bastante. Comprei. Arcade Fire. I’m loving it. Thank you boys!

22 June 2005

vida de rockstar

Tem um glamour do caraças a vida da estrela de rock portuguesa.
Diz o Gomo ontem, em concerto na fnac colombo:
"...o concerto não pode ser muito grande porque eu estou a trabalhar (...) [e] tenho que voltar para o jornal..."
Só faltava que trabalhasse na secção de necrologia!
Ooohh, I'm feeelliinnggg alliiiveee!!

viva o verão, o tanas!

Isto não é Verão, isto é o Inferno, nem à noite se respira.
Toda a gente sabe que o sol só devia brilhar com esta pujança quando se põe o pé na areia. Enquanto nos arrastamos no alcatrão e na calçada, POR FAVOR baixem o termostato! Aqui ainda há quem queira pensar!
A Primavera, essa sim é benvinda!
É no Verão que eu gosto da Escandinávia!

silly silly

jude

Houvessem mais homens como este a passear por Lisboa e eu até suportava este calor insuportável...
Jude, do you like sushi?

21 June 2005

sem amor sou nada senhor

Parecia mais um dia normal em Portugal continental. Até que chegámos a Fátima. Seguindo em carreiro atrás de alguém que deveria saber o caminho para o casamento somos apanhados em plena Via Sacra chocando com peregrinos em procissões atrás de procissões...

...o que se seguiu podia muito bem ser um sketch do gato fedorento...


“olhe que não pode trazer o carro para aqui!”
“mas onde é a capela dos húngaros?”
“mal-educados”
“peço desculpa, não sabia...”
“sem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”
“olhe chegue o carro para ai para a procissão passar”
“ai, vai bater no muro”
“sem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”
“olhe vire tudo para a direita”
“não, ouça-me, desfaça para a esquerda”
“ai, vai bater no muro”
“mas os carros podem entrar aqui?”
“sem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”
“a irmã sabe-me indicar onde é a capela dos húngaros?”
“sem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”
“faça marcha atrás e tire o carro daqui”
“mas não posso atropelar pessoas”
(a mãe da noiva passa por nós histérica – ai que desgraça, como é que saímos daqui?! Eu vou a pé, até já!)
“sem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”
“olhe, não sei se aquele é seu colega mas deve estar bêbado, já foi de encontro ao muro”
“seeem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”
“seeem amoooooorrr ssooouuuu naaadddaaaaaa sseeennhhooooorrr”

O próximo 13 de Maio não perco por nada!

19 June 2005

Serei a UNICA que ainda chama Vidas à revista suplemento do Expresso?

15 June 2005

here we go, girls

Over 70% of Single Women Happily Unmarried [and could stay that way forever]

"Over 70 percent of single women in Japan are satisfied with their lives, according to a nationwide questionnaire survey on marriage that was conducted in February 2005 by Yomiuri Shimbun, one of Japan's largest daily newspapers.

To the question, 'Do you agree that women can spend their lives happily without getting married?' 69 percent of unmarried respondents agreed. This exceeds the 50 percent of married people who answered yes to this question. Of single respondents, 73 percent women agreed, up 10 percentage points from the previous survey in 2003, and 67 percent of men agreed. Broken down by age bracket, 74 percent of respondents in their 20s, 66 percent in their 30s, and 58 percent in their 40s agreed that women can be happy without marrying.

To the question 'Do you think that the increasing tendency to marry later in life is a major social concern?' 58 percent of the respondents agreed, exceeding the 40 percent of respondents who disagreed. Multiple answers were allowed with respect to background factors bearing on late marriage; the top two reasons chosen by respondents were; 'An increased number of women participate in society' (67 percent), and 'Fewer people place importance on the concept of marriageable age' (52 percent).

These results show that single women tend to think positively about staying unmarried or marrying later. This is thought to be one of the factors behind a growing tendency to put off marriage. Many also think that this trend toward late marriage is contributing to the decline in the birthrate."

in http://www.japanfs.org

Se em Portugal já é uma tarefa homérica, no Japão é muito complicado ser mãe trabalhadora. A verdade é que, mesmo com boa vontade dos homens pela igualdade de direitos, o sistema japonês dificulta e muito que uma jovem mãe mantenha o seu posto de trabalho. Os empregos são a horas de distância de comboio, as creches praticamente inexistentes, e a divisão de tarefas com maridos que trabalham cerca de 15 horas por dia uma utopia.
O modelo vigente da família japonesa é o salaryman que se esfalfa pela empresa, faz tudo pela empresa, por que a empresa está em primeiro lugar, com a sua esposa japonesa que, na sua moradia nos subúrbios, toma conta das crianças e da casa toda a vida. No Japão são os homens que trabalham com o fundamental suporte da família.
Não será preciso saber muito para se ver que este modelo não agrada a muitas mulheres e, se ainda se há muita pressão social para que a mulher japonesa se case, a verdade é que são cada vez mais as que se revoltam contra esse espartilho, principalmente nas grandes áreas urbanas. E quantas mais forem, mais força vão dar às outras.
A diferença crucial do Japão para Portugal é a independência financeira. Quem trabalha tem condições seja para manter uma família (homem), seja para se manter sozinha (mulher). Não é esta miséria portuguesa em que os salários se gastam em comida no supermercado...
E claro que se vai tornar num problema social, porque com o não-casamento não vêm as crianças...

Mas será essa a única solução para a independência feminina? Ficar sozinha?
E porque é que se casam as mulheres (e os homens!) em Portugal?

Há muitos anos o Japão estabeleceu um modelo de sociedade que funcionava para eles. Tanto funcionou que os tornou na segunda maior economia mundial. Agora é assistir ao lento desagregar duma sociedade que não encontra em si própria a vontade de adaptar o sistema. Novas famílias, novas maneiras de trabalhar, viver, comunicar. It's time to move on, dudes!

14 June 2005

um fim-de-semana de vida e morte 4

E finalmente a vida, a minha vida.
Acho que contribui para a minha forte ligação a Lisboa o facto de ter nascido no dia de Santo António. No dia em que é sempre feriado. No dia, na noite em que Lisboa se treslouca pelos bairros populares. Na noite em que o Castelo parece o metro de Tokyo em hora de ponta e se encontram amigos ao acaso. Na noite em que é possível ter uma rua inteira a cantar-te os Parabéns...
No mesmo dia de Vieira da Silva (1908). No mesmo dia de Fernando Pessoa (1888).

Eu nasci numa sexta-feira 13, mas considero-me uma miúda cheia de sorte!

um fim-de-semana de vida e morte 3

cunhal

"(...)É bom que jamais percam a necessidade e o gosto de escrever, de pintar, de tocar um instrumento, de mesmo em silêncio, sem assim se chamarem, continuarem a ser artistas."

Álvaro Cunhal

in tv callas

um fim-de-semana de vida e morte 2

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Rotina, Eugénio de Andrade

um fim-de-semana de vida e morte 1

No Verão, costumo ser arrastada para umas sardinhadas de amigos do meu pai em que as pessoas mais próximas da minha idade ou têm 2 meses ou 43 anos... e que em geral são uma grandessíssima seca, não fosse a praia ali tão perto, para a qual me escapo dissimuladamente. O pior é que me estou a aproximar perigosamente da idade em que devo fazer companhia aos mais velhos que estão invariavelmente separados por sexos, as mulheres falando de casas e receitas e os homens de política... One day freedom will come.

Há uns anos, cheguei mais cedo a essa efeméride e, para além dos donos da casa atarefados, estava lá um velhinho simpático com quem troquei umas poucas palavras. Quando a festa se compôs, reparei que todos tratavam o velhinho com uma certa deferência... (discretamente:)"Pai, quem é aquele senhor?" ...Sara! O General Vasco Gonçalves... Ok, sorry! E...

Agora ouço o mal que fez ao país, o bem que fez ao país, sei lá o que fez ao país mas eu só consigo ver o velhinho ali sentado debaixo da árvore e só sei que não me importava de morrer assim a nadar numa piscina aos 80 e tal anos...

11 June 2005

"it's been so long since I've been around"

Saio para a noite lisboeta com a minha canon. "Pessoal, vou registar a noite de hoje!" "Ah... é para o blog..."
Caramba, não, não é para o blog, até porque não consigo pôr fotos naquela coisa...
Saí para a noite lisboeta com a minha canon porque ter uma máquina na mão ajuda-me a olhar à minha volta, ficou-me o hábito do Japão e agora talvez me ajude a redescobrir Lisboa...
Lisboa é pequena. Andamos. A baixa, ginginha (com ou sem?), a rua augusta, o arco, campo das cebolas animado pelos bailaricos, o cantor pimba, encontros, farturas e pregos, alfama e sé, despedidas de solteiro (eu vim de braga, pah!), bairro alto, chiado e multibancos, táxis e encontros, lux e tostas mistas, mais encontros...
Lisboa é pequena. No lux com nova decoração (para mim, compreenda-se) sem conhecer ninguém, reconheço tanta gente... Olha o meu vizinho... não é o gajo dos the gift... aquele era da minha escola... e estes não eram da faculdade? O estágio já acabaste?
Continuo a disparar a minha canon. "Ah, é para o blog..." diz-me outro , Raios não é nada para o blog! "Olha eu gostava do teu blog"... "Hmmm, e qual é o teu?... Então és tu..."
O desfile prossegue... Sim é o zé diogo quintela... e o tipo da Blockbuster... Vamos lá para baixo... vou à varanda apanhar ar... Quê? Aquilo é luz lá fora?... Já é de dia?... Vamos ver o nascer do sol!... Ooops... too late... Que horas são? Boa... vou de autocarro para casa.
Tentar manter um ar decente porque me sinto envergonhada ao cruzar-me com toda aquela gente que apesar de ser feriado e sete da manhã vai trabalhar.
Continuo a disparar a minha canon. Os restauradores de manhã são bonitos...
Se calhar ainda ponho umas fotos no blog.

como nos esquecemos do irrelevante

No noticiário mostra-se o lançamento da candidatura do Carrilho à Câmara... Enquanto tiro uns livros da estante ouço dizer "...pois e lá está a mulher dele...".
Penso "Mas é casado? Quem é a mulher dele?". Reponho uns livros e olho para a televisão... "Mas o que é que a Bárbar... Ah. Pois é."

09 June 2005

Eu tenho saudades da minha internet-super-connection de tokyo. E de ser fácil postar e pôr fotos... E do japonês simpático que me arranjava o computador e combatia os virus. Ai tenho que me tornar uma geek e pôr isto tudo em ordem! Esta balbúrdia informática tem os dias contados!

portugal em mono

Quando voltei houve pessoas interessadas em saber como, depois de ter estado no Japão, eu iria ver Portugal. Curioso que, logo na primeira esquina, com comentários às lobotomias do futebol e ao machismo dos piropos foleiros, tenha levado com comentários reprovadores “E só vês isso?”
Sim, se querem saber só vejo isso. Só vejo pessoas alarves e brutas, só vejo má-educação, só ouço má-educação, só ouço barulho, carros a apitar, demasiado futebol, demasiada apatia, estupidez, queixas e reclamações e tudo me parece desinteressante e vazio. A crise, a crise....
Sim, eu gostava de olhar à volta e ver Beleza mas é mesmo o Feio que me entra pelos olhos.
Deve ser isto o “reverse-cultural-shock”. Eu espero que isto seja o reverse cultural shock or I’m in big trouble...

Bom, salvando-me da minha própria apatia e desânimo (e às vezes involuntariamente contribuindo para os aumentar) aí estão eles, my friends, my family, but it's only by myself I will change the way I see my world.

devia ter explorado as vantagens de ser alien

Uma das vantagens de viver no estrangeiro é vivermos meio alheados do mundo. Não se liga muito ao que acontece no país em que se vive e quando se liga os problemas são distantes porque não é o meu país. As notícias de Portugal também não incomodam muito, são minimais e Portugal parece essa entidade distante da qual o cérebro elimina as partes más, exaltando as boas memórias.
Tudo para dizer que se me queixava de não perceber nada à minha volta no Japão agora sofro dum excesso de percepção. O negativismo chegou para ficar e começa a cair sobre mim como chuva-molha-parvos... Ou abro o guarda-chuva ou vou ficar encharcada.

07 June 2005

arrogant you must be

Sempre achei que para se ser arquitecto há que destilar uma certa dose de arrogância. Em geral, esses grandes arquitectos são arrogantes até mais não e dizem os maiores disparates como se fossem as verdades que vão salvar o Mundo.
Acho uma piada do caraças o Koolhaas vir dizer que “agora o Porto já está no Mapa” quando é no Porto e arredores que há a maior concentração de obras do Siza Vieira (que recebeu o Pritzker antes dele!) e do Souto Moura (a quem foi roubado o Pritzker para ser dado a ele!).

Rem Koolhaas e a cantiga do bandido

Na minha estadia na Invicta aproveitei e fiz uma visita guiada à Casa da Música.
Aproveito para deixar a dica e sugerir a quem for/estiver no Porto que aproveite pois são muito interessantes e podemos entrar numa série de espaços que, para assistir a um espectáculo musical, normalmente não se visitam. Visitem o site ou liguem para o Departamento de Relações Públicas (220 120 214).
Se ligarem serão informados que as visitas demoram 1 hora mas parece que os guias não concordam e a minha visita durou 1h45mn, depois de ter começado cerca de 30 mn atrasada (por atraso da visita anterior...).
A visita leva-nos a percorrer uma série de espaços e o percurso é quase labiríntico, “uma experiência”, segundo Koolhaas. Passamos pelo café, sala multimédia, auditório principal, salas das crianças, sala vip, futuro-restaurante, sala 2 e o único lugar onde se respira é no Auditório Principal, que é imenso e com folha de ouro formando um padrão gigantesco a imitar veios de madeira, mas que realmente parece mais um tecido tigresse. Todas as restantes salas me pareceram muito acanhadas e “over-decorated” aquilo é azulejos verdes,azuis e brancos quase hipnóticos, outra tem uma borracha verde, outra são de novo os azulejos excessivos, as salas das crianças uma era laranja e outra roxa, um pouco neurótico, não? Para além disso parecem “sobras”, espaços amputados, ou mais poeticamente “escavados”...
Os vidros ondulados distorcem a realidade exterior.
Claustrofóbica. Assim eu senti a Casa da Música.
E nem vou avançar pela segurança contra incêndios do edifício...

A verdade é que não sou grande fã do Koolhaas mas o gajo às vezes sai-se bem. Gostei muito o Educatorium (“o chão que se torna parede, a parede que se torna tecto”) e adorei a Biblioteca de Seattle, espaços muito bem resolvido, ideias inovadoras, um fantástico dinamizador cultural e sempre cheio de gente (há lá melhor teste?). Agora no Porto...naaaaaa. You don't fool me.

porto

Eu gosto do Porto. Do Porto fica-me sempre a imagem de uma cidade com mais qualidade urbanística, com melhor espaço público, menos fragmentada e melhor arquitectura. Fala-se de uma “ditadura formal da escola do Porto” mas é preferível isso à patobravice dos subúrbios (e centro) de Lisboa.
Gosto da cidade próxima do Rio, da Foz, do Mar. É pena ser tão pequena. Mas há souto moura e siza por toda parte. E quando o sol brilha ainda se respira.

04 June 2005

a aceleração

Nos meus tempos de infância eu lia quadradinhos da Disney, com uma predilecção especial pelo Pato Donald. Ainda hoje os leria se, por falta de espaço, não os tivesse enfiado numa caixa em localização indeterminada.
Uma história que nunca me saiu da cabeça foi uma em que o Tio Patinhas tinha um chapéu que soprava e conseguia parar o tempo, mas ele continuava ao seu ritmo, o que lhe dava tempo para pensar sobre os investimentos na Bolsa...
Pouco me interessa a Bolsa (uma das razões porque sei que serei pobre o resto dos meus dias) mas fiquei sempre fascinada com a possibilidade de parar o tempo.
Eu gostava que o tempo parasse, por exemplo, quando estou a ler um livro! À minha volta jazem tantos livros que eu quero ler, mas é preciso tanto tempo, tanto tempo!
Se não seria maravilhoso que assim que abrisse um livro o tempo parasse? Ia-me sobrar tanto para o tanto que gosto de fazer...
Outro prazer que me atormenta é dormir... Dormir é uma das maiores maravilhas do Mundo mas gasta-se tanto tempo nisso (e eu ainda mais!)
Ah se eu pudesse dormir mas sem gastar tempo...

ps: e bom bom seria que o tempo parasse cada vez que me ligo à net... ah! vícios!

01 June 2005

disseram-me um dia (há pouco tempo)

"Eu não percebo é porque é que voltaste"

coisas que não fazem saudades

Do que eu nunca senti falta foi da histeria geral associada ao futebol.
Dá-me vontade de correr tudo à chapada quando ouço "a avenida dos aliados é nossa e não tinham nada que vir para cá"... Pois é devem ter feito uma demarcação territorial com mijo...
Irrita-me a cegueira generalizada em assuntos futebolísticos, irrita-me as ligações promíscuas futebol/poder político, irrita-me ver esta gente toda a ser usada e ficar tão feliz com tão pouco e com tão pouca importância...

piropos portuenses

"É bonita mas o [casaco] vermelho..."

ah! fadista!

Mal sabia eu que naquele dia em que fui para Coruche para as festas da Vila ia conhecer o homem da minha vida... Conhecer é força de expressão porque nunca troquei duas palavras com ele. Ai Camané, que voz tens tu homem! Ai Camané, não tivesse eu 1,70 e tu tamanho japonês! Ai Camané quando cantas és mais alto que o céu!
Ai Camané com o cabelo desalinhado e camisola-manga-à-cava no clip dos humanos e esses olhinhos verdes tás lindo!

25 May 2005

elogio ao multibanco

A invenção do cartão multibanco (que ouvi ter sido portuguesa mas já não acredito em nada do que ouço) é, no mínimo, genial.
Em Portugal já nem percebemos porque já é tão rotineiro "pagar com cartão" como escovar os dentes (esperemos!).
No Japão não há cartões para ninguém. Há cartões dos bancos japoneses que dão para levantar dinheiro nas atm dos respectivos bancos ou dos postos de correio, mas pagamentos nas lojas, restaurantes etc é em cash vivo! Nem Visa aceitam na maioria dos sítios! O que, para mim, que nunca tenho mais que 10 euros na carteira (e 20 no banco) criava uma sensação de insegurança brutal ao carregar cerca de 170 euros na carteira! Ao fim duns tempos habituamo-nos, até porque as notas voam tão rapidamente que não parece assim tanto!
Fiquei sem os dois cartões multibancos 2 dias antes de regressar do Japão, o que provocou um pequeno pânico já que quem me podia emprestar dinheiro ou já não o tinha, ou era estrangeiro. A coisa lá se resolveu com um enviado do Céu.
Agora estou em Portugal desfalcada de cartões, à espera que me enviem os novos, a experimentar viver sem multibanco. As transferências ao balcão custam uma fortuna. Só posso levantar dinheiro com a caderneta. Agora perdi a caderneta. Ainda bem que tenho dois bancos. E outra caderneta.
E pronto, só vos conto isto para verem as emoções do regresso na minha vida e porque devia estar era a escrever o relatório e n ã o m e a p e t e c e!

r e s t a r t

Já resolvi o imbróglio criado por mim mesma do título. Mais um restart!

24 May 2005

e agora vou dar uma de guia turística

A pedido de várias famílias, em vez de responder mail a mail, vou deixar aqui algumas dicas que me pediram os viajantes com destino Planeta Nippon.

Primeira dica, não se preocupem. O Japão, apesar de ser no extremo oriente e falarem uma língua esquisitíssima, está muito ocidentalizado. Os comboios (e tudo em geral) são extremamente fiáveis. A não ser que se queiram perder no Japão rural vão encontrar sempre tabuletas em romanji (letras romanas, não caracteres japoneses). Os japoneses são muito simpáticos e assim que vêem um estrangeiro (principalmente se estiver em lugar não muito turístico) vão ter com ele (nem que seja pela aula de inglês gratuita) e ajudam. A mim ofereceram-me almoço e deram-me boleias várias. Sei de quem até alojamento gratuito foi oferecido (e aceite).
Claro que dá jeito ter um mapa, saber onde se vai e mostrar os nomes escritos no papel (um singela diferença de pronunciação e vão parar ao outro lado da ilha).
Nos restaurantes é pior, porque poucos tem english menu, mas alguns têm fotos. E, normalmente, à entrada há um armário com recriações dos pratos em plástico! De qualquer maneira faz parte da aventura nem saber o que se come. Comer nos restaurantes é relativamente barato. Os bares de sushi saiem bastante em conta senão comerem demais. Há em Ueno um restaurante que por 1000 ienes é sushi-all-you-can-eat.

Para viajar eu recomendo comprarem o Japan Rail Pass. Só pode ser comprado no estrangeiro por turistas e depois é activado no Japão. Em Lisboa pode ser comprado no Centro Comercial Arco-Íris e vem de Madrid, mas vou pedir à minha amiga Rosa que venha aqui deixar mais detalhes porque eu nunca comprei nenhum.
O Japan Rail Pass dá acesso ilimitado a toda a linha da JR, ou seja é de shinkasen (tgv lá do sítio) para todo o lado, uma maravilha. Um detalhe: não dá muito jeito dentro de Tokyo porque a linha do metropolitano é muito melhor. Por isso para quem vai cerca de 10 dias pode só comprar um de uma semana e os dias que está em Tokyo não o usar. Atenção que há duas companhias de metropolitano independentes e saltar de uma para a outra custa na carteira.
No metro há uns passes pré-comprados de 1000, 3000 e 5000 ienes, chamados PASSNET que poupam o trabalho de andar sempre a contar moedas a comprar bilhetes, MAS NÂO VOS FAZEM POUPAR DINHEIRO. O que fazem é ir descontando o dinheiro cada vez que entram e saiem do metro. Funcionam para todas as companhias excepto a JR.
Este site ajuda a programar viagens e é muito fiável porque os horários são MESMO cumpridos quase ao segundo. Ahh... I miss that!

Sair do Aeroporto. Há várias maneiras de sair do aeroporto. A mais evidente é apanhar o Narita Express (+/- 3000 ienes – 60 mn), mas é a mais cara. A que eu recomendo é apanhar a Keisei Line que oferece dois serviços: Skyliner (+/- 2000 ienes –60 mn) ou a linha normal (1000 ienes – 80 mn). Com a redução do preço vai diminuindo o conforto do comboio, por isso make your choice!

Estadia. Este é o departamento que sei menos porque tinha casa. Sei que na embaixada (av da liberdade, 245, 6 andar /tel.213110560/09.30-12.30-14.00-17.30) dão uma brochura com uma rede de ryokans (os ryokans são uma espécie de hoteis tradicionais, em que dormem em futons sobre tatamis. Não são luxuosos mas muito confortáveis. Recomendo) com endereços de e-mail. Pousadas de Juventude também as há e como sempre variam imenso na qualidade e no Japão são caras, tirando a de Kyoto que é muito barata mas um buraco autêntico. Se estão a pensar ficar em pousadas vale a pena fazerem o cartão cá porque para não membros o preço aumenta.
O que não deviam perder é dormir num capsule hotel. Só no Japão e é muito divertido. Atenção que a maioria é men only. É mais difícil arranjar para mulheres. Este é um em Tokyo.

Se forem com amigos tem que ir a um karaoke, só para ver como é.
Indispensável é também uma visita a uma onsen, mas não se esqueçam que basicamente estão a tomar banho com uma data de gente nua à vossa volta (mas a maior parte são separados por sexos). Mas é relaxamento total... Difícil será encontrar uma boa e facilmente acessível de comboio, mas é ir perguntando pelos tourist offices...

Guias. Online este (que é o que está na minha lista de links aqui ao lado) é mesmo muito bom! Em papel, eu tinha o Lonely Planet que não me deixou mal.

A internet é uma fonte inesgotável de informação (até demais) e um pulinho à embaixada vai-vos deixar cheios de papelada.

Mais dúvidas? O consultório sushi lover está aberto!

23 May 2005

o que me interessa para o fim-de-semana prolongado

"Museus de Arte" Simpósio Internacional de Arquitectura :
serralves | porto
Nos dias 27 e 28 de Maio, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto, vai ser o palco de um simpósio internacional de arquitectura sobre o tema “Museus de Arte”.
A proposta é reflectir sobre a forma como se projectam estes espaços a partir da apresentação de projectos, recentemente concluídos, por um grupo de arquitectos de prestígio internacional. O simpósio é uma iniciativa paralela à exposição “Álvaro Siza - Expor: Projectos para Museus e Espaços de exposição” que mostra trabalhos concebidos nos últimos 10 anos para museus ou espaços de exposição escolhidos pelo arquitecto, entre os quais se destacam o próprio Museu de Serralves, o Centro Galego de Arte Contemporânea (Espanha), a Fundação Iberê Camargo (Brasil) e os diversos projectos realizados para a ampliação do Stedelijke em Amsterdão.
A iniciativa é da Ordem dos Arquitectos – Sub Região Norte da Fundação de Serralves. Na sexta-feira, as sessões decorrem das 9h às 18h30 com Meinrad Morger e Heinrich Degelo responsáveis pelo Museu de Arte de Lichtenstein (2002); Stephane Beel autor do Roger Raveel Museum, em Machelen, Bélgica; Paulo David autor do Casa das Mudas, na Calheta, Madeira (2004); Kazuyo Sejima/Ryue Nishizawa, do atelier SANAA - Sejima and Nishizawa Architects & Associates, autores do Museu de Arte Contemporânea do Séc. XXI, Kanazawa, Japão (1999-2004); e Mendes da Rocha, em videoconferência, responsável pelo Museu Brasileiro da Escultura - MUBE, São Paulo, Brasil (1998). No sábado as sessões começam às 10h30 com o arquitecto português Aires Mateus, do atelier Aires Mateus & Associados, que apresenta a Biblioteca e Centro de Artes, Sines (1999-2005); Anne Lacaton e Jean-Philipe Vassal, do atelier Lacaton & Vassal, apresentam o projecto Palais de Tokyo, Paris (2001) ; Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio apresentam o ICA, Boston (2003/2006) e EyeBeam Museum of Art and Technology, Nova Iorque (2002) ; Tony Fretton apresenta o Centro de Artes de Camden, Londres (2004), o Centro de Artes Visuais, Sway (1996), e a Galeria Lisson, Londres (1986 e 1992); e, a encerrar a sessão, Siza Vieira que apresenta diversos projectos de museus e espaços de exposição."

Preço normal: 200 euros
Preço estudante: 120 euros (não inclui estudantes de pós graduações, mestrados e doutoramentos)
inclui: tradução simultânea, almoços, cofee break, documentação

Mais baratinho é ficar na biblioteca ou na sala multi-usos onde a conferência será transmitida em grande formato. Custo: 60 euros (não inclui tradução simultânea)

Mais informações:
Liguem porque na net não há nada! 808 200 543

22 May 2005

start over is no way to begin

hhhmmm, cof cof... vamos lá, outra vez.
Eu sempre adorei viajar. A culpa é obviamente dos meus pais que me enfiaram num avião para a Grécia quando eu tinha 13 anos e provavelmente terei ficado maravilhada com a novidade e para sempre com o bicho carpinteiro das viagens.
A minha paixão levou-me das viagens do liceu a muitos destinos, da passeata com a mãe por Espanha, pelo curso de inglês em Inglaterra ao interrail.
Na faculdade apostei mais alto e fiz erasmus na Noruega, o meu primeiro choque cultural a sério.
Saberão muitos de vós que assim que se põem o pé por algum tempo lá fora e a experiência é altamente positiva, o bichinho transforma-se num monstro e assim que voltei para Portugal já só queria era sair outra vez...
Não ajudou ser estudante de arquitectura, uma missão (ou na maior parte das vezes uma cruz) que precisa de ser alimentada constantemente com novas maneira de ver, construir, ser...
Não ajudou ser estudante de arquitectura num país em depressão com professores a condizer que insistem que mostrar sempre o lado negro da profissão é ajudar-nos para o futuro...
Mas na realidade o que não ajudou fui mesmo eu que quero sempre mais e quero sempre diferente e tenho síndrome de peter pan...
A minha última aposta foi o Japão, um programa de intercâmbio, uma oportunidade única que agarrei com todos os dentes.
Em geral tudo o que eu temia antes de ir para o Japão não se verificou e muito do que eu achava que ia acontecer não aconteceu.
Uma mudança tão radical como o Japão tem esse maravilhoso condão de nos dar completamente a volta, arrasar todas as certezas e fazer-nos pensar e questionar tudo até ao rebentamento dos fusíveis do cérebro.
Não rebentei fusível nenhum, mantive a minha sanidade mental, e agora voltei.
Mas continuo lost in translation.
Mantive um blog enquanto estive no Japão, que poderão visitar aqui, e adorei a experiência, ajudou-me a entender muito pelo que estava a passar.
Mantê-lo deixou de fazer sentido, por isso, para continuar a entender pelo que estou/vou passar agora que voltei, criei este novo blog.

Pufff... a partir daqui sou eu às voltas a tentar encontrar o meu lugar.
Sigam o meu voo se quiserem.

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